sexta-feira, 2 de agosto de 2013

AGOSTO - MÊS DE OLUBAJÉ - AS QUALIDADES DE OMULU

As qualidades de Omolu

Os mitos atuam na memória coletiva e funcionam em simbiose com os anseios e aspirações dessa coletividade. Transmitidos ou herdados da cultura africana, transformados ou decodificados pela cultura contemporânea, eles subsistem no imaginário daqueles que os veiculam e cultuam ou neles acreditam. Os mitos cumprem a função primordial de afirmação da identidade cultural de um grupo ou sociedade. O Candomblé é essencialmente energia, transposição, transmutação e culto. Dessa forma, os elementos veiculados reforçam a materialização dessas energias. Eles reiteram o símbolo, atualizam o seu sentido na medida em que estimulam a apreensão de vários significados - o seu deciframento.
Permitem, assim, a elaboração de um jogo de correspondências análogas que denotam a multiplicidade de funções veiculadas pelo mito ou símbolo, e, por extensão, pelos orixás. Já foi dito que os orixás se desdobram em “qualidades” que reforçam determinadas características ou particularidades de sua manifestação. Nesses casos, o orixá receberá um nome específico ou acrescentará ao seu nome original um outro. Daí ouvirmos falar em Oxum Apará; Xangô Alafin; Oxum Pandá; Ogun Narué; Ibualama (Oxóssi); Otin (Oxóssi); Obaluayê; Intoto (qualidades de Omolu).
As qualidades dos orixás não foram muito bem explicadas pelas fontes deste livro. Há muita contradição e informação errada quanto aos nomes e funções ou até mesmo à associação com outros orixás.
No livro Os orixás e a personalidade humana, o babalorixá Mário César Barcellos faz um relato das qualidades dos orixás.
Sobre Omolu, são as seguintes:
Omolu - Ajunsun - Fundamento com Oxalá e Ogum.
Obaluayê - Jagun - Fundamento com Lebara, Ogum e Oxaguiã.
Xapanã - Fundamento com Nanã, Oxalá e Oxóssi.
Azoani - Fundamento com Oxóssi, predomínio da cor azul.
Obaluayê - Akerejébe - Fundamento com Oxumaré.
Omolu - Intotô - Fundamento com Lebara e Oxumaré, esta qualidade teria a sua indumentária na cor branca.
A Profa. Elena Andrei, em dissertação de mestrado em História da Arte apresentada na UFRJ, destaca algumas qualidades de Obaluayê, ressaltando que a diferenciação se dá em função dos lugares a que o orixá estivesse pousado. Obaluayê seria um viajante velho, rei da terra e vingativo. Ela enumerou as seguintes qualidades:
Xapanã - É a divindade da varíola, seu nome é tabu.
Babá Ibonã - É ligado à febre.
Omolu Wari - É associado à peste.
Savalu e Azoani - São qualidades do Daomé, são mais velhos e se apresentam curvados e silenciosos.
Agorô, Itetu e Ajansu - São Omolus jovens. A sua dança é quase acrobática.
Jagum - É uma qualidade de Omolu ligado à guerra. Ele é brutal e usa um Laguidibá vermelho. Sua palha seria rosada.
No livro O banquete do rei ... Olubajé, o prof. José Flávio P. de Barros adverte que as qualidades totalizam 16 e que, quando Sapatá é evocado no terreiro, são mencionados os nomes de todos, saudando-os: Ajinsun, Omolu, Omilé, Obaluaiê, Jagun, Azuane e outros. Joaquim Motta atentou para a desordem que se estabelece quando tentam denominar as qualidades de Omolu. A confusão advém das regiões diferenciadas, da origem e dos cultos que foram se ramificando. O próprio Yoruba, pela sua tradição oral permite que se criem corruptelas e variações. Joaquim destacou algumas qualidades:
Azoani - De origem no Daomé, seria uma qualidade das mais antigas, do período correspondente à Idade do Barro.
Baba-Igbonã - Omolu com Iansã.
Itetu Fomã - É qualidade guerreira, chamam-no de Afomã.
Jagun - Ligado a Oxalá, veste branco. Também chamado O Guerreiro Branco de Oxalá.
Ajunsu - Qualidade de Omolu na nação Jeje. Aparecem nomes que são variações, como Azunsu, Azonce, Azonço ou Agonço.
Antônio Alves Teixeira, no livro Obaluaê e Omulu, faz uma lista de possíveis nomes, qualidades ou denominações diferenciadas que ele colheu na Enciclopédia Delta-Larousse, pág. 4929, edição de 1970. Transcrevo os nomes conforme a obra citada, sabendo que muitos desses termos são corruptelas de outros e não se referem às qualidades de Omolu:
Jagun, Azbagba, Omulu, Obaluaiê, Zaponã ou Zapata, Afomã, Savalu, Dasa, Arinyarum, Azonzu ou Ajansun, Azoani, Posun ou Posuru, Agoro, Télu ou Etetua ou Itetua, Topodun, Paru, Arawe, Abalau, Baru, Odogum, Omonolú, Saponã ou Xaponã e Wariwaru.
Pierre Verger, em Notas sobre o culto aos orixás e voduns, colheu de vários informantes uma lista de 21 nomes, que coincidem com a relação acima acrescida de Ajoji, Avimaje, Ahoje e Arwaje. Ele informa ainda que as qualidades devem ser 14 e que muitos nomes referem-se à região de origem do orixá (ou qualidade). Na medida em que se expressa como um feixe significativo, uma confluência de signos, cada orixá tem seu espaço demarcado a partir de códigos específicos, referentes a simbologias determinadas. No livro Os orixás e a personalidade humana, o babalorixá Mário César Barcellos faz um relato das qualidades destas divindades, associando-as aos aspectos da personalidade de seus “filhos” e relacionando-as a dias da semana, flores, frutas, animais e quizilas (o mesmo que interdição, proibição).
Omolu tem regência na segunda-feira. Flor: quaresma. Fruta: banana da terra. Animal: cachorro. Quizilas: claridade e amêndoa. Desta forma, é interessante observar que o campo significativo do orixá se demarca não só através do estabelecimento de conexões e interrelações com elementos do mundo circundante, como através da configuração de um campo de interdições, articulado com elementos de distintas esferas e diferenciados apelos aos sentidos.

Extraído do livro - SOBRE OS SIGNOS DE OMOLU - RIO DE JANEIRO 1999 - A ROUPA DO SANTO – OMOLU   - EDITORA ÁGORA DA ILHA